quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

(heart)



«Why'd you sing hallellujah if it means nothing to you?
Why'd you sing with me at all?»

desabafo 1

apetece-me morrer, quase literalmente.
há já algum tempo que nada de bom acontece na minha vida e, sinceramente, já não importa.
sou só mais uma apática que caminha no meio da multidão com rumo ao nada.
e não me importo de ser discreta, aliás, adoro ser discreta, mas...
falta qualquer coisa. e sinto que o mereço.
apetece-me morrer, quase literalmente.
o sorriso genuíno que se dava pela manhã é agora forçado.
saio de casa com a menor das vontades.
estou farta de pessoas.
de pessoas mesquinhas, cínicas e gananciosas.
pessoas que nem sabem ser pessoas.

os dias arrastam-se, já nem eles têm vontade de viver.
os dias são curtos e frios, as noites são longas e pesadas.
porque não matar-me já e acabar com o sofrimento desta morte lenta?

(desabafo)
 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

vazio

Custa acreditar no tempo
que perdemos com o futuro 
nas nossas mãos.


No baloiço das árvores
puras, nas árvores que curam.


O céu onde voo de noite,
para longe daqui, com 
o passado acorrentado às minhas 
asas, está desmaiado, apagado.


O sol onde me queimei múltiplas 
vezes, onde múltiplas vezes caí no mesmo 
erro, está mais brilhante que nunca.


O fantasma que me pertence, 
que se apegou a mim e 
se alimenta lentamente da melancolia 
da sala, retirou-se em debandada. 


Estou perdida entre tanta 
urbanização; leva-me daqui, 
por favor.


Fiquemos eternamente 
aconchegados nas grandes 
mãos que cobrem o 
nosso mundo.


Porque sim.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ruas abstractas


As ruas abstractas, nas quais a vida caminha sem destino.
Deambula por entre pessoas sem cara, sem propósito de existência. 
Coitadas, sem destino.
Os transeuntes pisam os paralelos meticulosamente encaixados, que, pobres deles, não os levam a lado nenhum.
Eles acham que têm cara, mas não têm nada.
São só peões que caminham nas ruas abstractas, onde a vida deambula, dia e noite, sem destino.
Sem uma casa para onde regressar, sem ninguém que a espere.
E, entre os dias que voam, os transeuntes acabaram por ser devorados pelo próprio pai, sem que este o consiga evitar.
Pobres coitados
Que caminham nos paralelos encaixados
Na direcção da morte.
Porque as ruas abstractas ensinam o caminho para o fim da vida. 
Que não tem destino.



sábado, 19 de novembro de 2011

a pradaria



Há um sítio, uma pradaria.
Uma pradaria com a maior multiplicidade de flores e cores, onde o sol é escaldante e o céu muito azul.
Uma pradaria com relva fresca, daquelas pradarias onde tu gostas de caminhar descalço.
Nessa pradaria há um salgueiro.
Um salgueiro muito velho e muito grande, mas sempre muito bonito, com o seu verde e as suas folhas caídas.
Salgueiro este onde, nos dias de muito calor, te sentas na sombra e lês um livro. Às vezes levas uma guitarra.
Sentes-te protegido lá? Eu sim.
Perto (pertíssimo!) desse salgueiro, há um rio.
Um rio de um verde esmeralda, brilhante e calmo.
Rio este onde, quando a sombra do salgueiro já não chega, refrescas-te nas águas límpidas e brilhantes daquela dádiva das montanhas.
Eu sei que gostas muito desse sítio.
Eu também. 
E muitas vezes te vi lá: parecias um anjo. Tão natural, tão puro...!


Mas.
Os dias de sol brilhante acabaram.
A pradaria já não tem flores, e é só de uma cor, morta. O céu é agora cinzento, as águas são escuras e inseguras, o salgueiro já não tem cor, já não protege.
Pudera.
Foste embora.
A tua pose angelical e o teu ser divinal abandonaram a pradaria, abandonaram-me a mim.
Agora não sei onde estás.
Sei, porém, que, onde quer que estejas, o teu ar angelical está a dar vida a um outro sítio.
Sei, também, que vais voltar.
E eu vou, ingenuamente, esperar-te debaixo do salgueiro, esperar que chegues e voltes a tornar o sítio puro, mais uma vez.
Porque sei que vais voltar.
E eu...
Eu vou voltar a ser feliz.








quarta-feira, 16 de novembro de 2011

partir para ficar

Acho que, a algum ponto das nossas vidas, já nos apeteceu fugir.
Agora é exactamente o que quero fazer.
Quero fugir da minha vida, deixar tudo para trás.
Quero largar as roupas já adaptadas à forma do meu corpo;
os copos que tantas vezes beijaram os meus lábios;
o perfume que tantas vezes se escondeu sob a minha pele.
Quero largar tudo.
Quero começar tudo de novo, anonimamente.
Ser mais uma pessoa na multidão imensa de uma grande cidade, que caminha, sem nome, nos passeios cinzentos e sem vida.


Quero sim, fugir.
Mas também quero cá ficar.


Quero dormir durante dias, ficar inconsciente, sem aperceber-me do que me rodeia.
Quero ficar alheia a tudo, quero tapar os meus ouvidos e não ouvir nada.
Mas quero ficar, eu quero ficar.
Quero-me ir embora sem ter que ir embora.




"Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer ter que me ir embora."


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

nós

Não há tempo, não há espaço.

Há um nós.
Há um eu e tu perdido no manto celestial do Universo.
Um tu e eu invisível a todos e a nós próprios.
Ou não.
Provavelmente não existe um nós.
Nem um eu e tu.
Nem um tu e eu.
Somos relativos a nós mesmos.
Um paradoxo constante nas linhas perpendiculares de um gráfico.
Somos duas linhas que se encontram no zero e se refugiam no nada.
O nosso amor é um veterano de guerra que sobreviveu à linha de fogo das nossas vidas.
Lutou com tudo mas terminou com nada.
Acabou abrigado na nossa demência.
Coitado, nunca mais será o mesmo.
Ou melhor, nunca mais será algo.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

tempo

Os meus pensamentos estavam vazios.
Olhei para o lado.
Não estavas lá.
Corri para a janela e tentei encontrar-te, em vão.
Não estavas lá.
Procurei-te nas nuvens, tinhas desvanecido.
Não estavas lá.
Procurei-te no tempo.
Nunca exististe.



Permaneci com os pensamentos vazios, estéreis.
Olhava para todo o lado, e não havia sinais de ti.
Encontrei, porém, algumas recordações guardadas, perdidas, deambulando por lado nenhum.
Agora não tinha certezas nenhumas, de nada.
De nada estava a minha mente cheia. 
Com tudo o coração suportava.

"Should I give up or should I just keep chasing pavements, even if it leads nowhere?"




quarta-feira, 26 de outubro de 2011

faz frio

Acordei já tarde. 
Fazia frio. 
Fui buscar um casaco de malha e calcei as minhas estimadas pantufas em forma de patas de ogre. 
Fazia frio e eu sentia-me apática.
Resolvi ir fazer um chá de cidreira pois fome não tinha muita. Enquanto a água fervia,  encostei-me à porta da cozinha que dá para a varanda e, enquanto observava as gotas a caírem no muro da varanda da vizinha, perdi-me nos meus próprios pensamentos. Até agora, ainda não sei onde estavam. Talvez estivessem num sítio sereno e feliz, talvez tenha sido por isso que não dei conta deles.  Sei, porém, que despertei ao ouvir o barulho da água, que ao ferver demasiado, começava a intrometer-se com os bicos quentes do fogão. 
Após preparar o chá, regressei à varanda e sentei-me em cima da botija de gás vazia.
O chá fervia, mas fazia frio e nem ele me aqueceu.
Comecei então a recordar que, há um mês atrás, aquela vista era completamente diferente daquela que eu observava hoje. Recordei, também, que o meu amor por ti ardia numa chama intocável.
Recordo, ainda, que não fazia frio e eu sentia-me feliz. 
Agora, faz frio todos os dias e eu não sei que mais fazer para voltar a ser quente, para voltar a arder.
Faz tanto frio que me sinto a morrer por dentro
A tristeza cedeu lugar à apatia e eu não sei o que fazer. 
Não sei que fazer com este frio que me invade a alma e a deixa murcha, sem chama, sem nada.
O ciúme é egoísta e tóxico, destrói por dentro.
O ciúme traz frio, é por causa dele que me sinto assim.
A ideia de pertenceres a outra pessoa desola-me. Arrasa-me. Descobre-me. Revela-me.
Deixa-me com frio.
Deixei de sonhar, com medo da realidade, com medo de ficar desolada, arrasada, descoberta, revelada.
O vento levou-me tudo, apagou a chama e deixou-me sem nada.
Não.
Deixou-me algo: frio.
O céu estava negro, pesado. Parecia carregar o mundo todo nas costas. Contudo, carregava apenas água que rapidamente se prontificou a cair, com brutalidade, sobre a terra. As árvores estavam despidas, e as suas folhas estavam mortas no chão. Tal como tudo o que eu tinha, morto no chão. Os seus troncos pareciam ter frio. Tal como eu, gelada até aos ossos.
Regressei para dentro, deixei a caneca na cozinha e fui sentar-me à secretária. Enquanto o computador ligava, comecei a ler os post-its que tinha na parede e vi aquele que me escreveste, há já algum tempo. Sorri ao recordar a sua história e, tristemente, apercebi-me de que o tempo não pára. Balança, porém, para trás e para a frente, obrigando-nos a preencher o passado e a retirar-nos o presente, desconcertando os passos do futuro.
No entanto, há coisas que nem o tempo pode mudar. 
Passou já algum tempo e ainda estou com frio.
Passou já algum tempo e o meu amor por ti ainda não morreu.
Fui fraca, por isso ainda tenho frio.
Então, apercebi-me:
Tenho frio porque já não sinto os teus braços rodearem-me o pescoço, envolvendo-me em segurança. 
Tenho frio porque já não ouço as palavras calorosas saírem da tua boca para me fazerem feliz.
Tenho frio porque já não ouço o bater do teu coração no meu ouvido.
Tenho frio porque já não te tenho.



segunda-feira, 24 de outubro de 2011

o início


Há dias em que me sinto reduzida à insignificância. Hoje é um desses dias. 
Insignificante perante aquele que amo pois sei que nunca hei-de ter a hipótese de segurar o peso do seu amor, coisa que faria com todo o meu agrado.
Sinto-me doente. Doente de ciúme. Este sentimento surge como que uma arma letal, que, lentamente, vai degradando o meu físico. e mais tarde, aniquilando o que resta do meu ser psicológico, 
E já o sinto, o início do verdadeiro sofrimento. Corrói, e dói, dói muito. Uma dor mais que incómoda percorre todo o meu ser e faz questão de evidenciar, em letras bem grandes, que aquele que segura inconscientemente todo o meu amor se pode entregar a outra pessoa que não eu. 
Sinto-me como que a deteriorar cada vez que isso me corre pela mente. Gostava de me poder entregar a ti de peito feito e poder suportar qualquer consequência mas não consigo.
Pensava eu que sofrer de amor era coisa do século passado, ou até um cliché. Cliché até eu o sentir, até eu provar do veneno que intoxicou muita gente. Gente essa que sofreu tanto ou ainda mais que eu.
Sonhar, neste momento,é como uma caminhada consciente para o suicídio da alma. A queda do sonho para a realidade é longa, dura e dolorosa. Dói cair na realidade e saber que nunca estarás comigo quando eu mais precisar, dói saber que não é no teu ombro que vou chorar quando a vida me fizer tropeçar nos meus próprios pés.
E de nada vale ficar aqui a lamentar por entre palavras pois cada letra que aqui escrevo é um acrescento à minha dor. E pouco tardará até eu assistir ao desfalecer, por entre tanta dor, tanta mágoa, tanta esperança vã, do meu próprio corpo, mente e alma.