quarta-feira, 26 de outubro de 2011

faz frio

Acordei já tarde. 
Fazia frio. 
Fui buscar um casaco de malha e calcei as minhas estimadas pantufas em forma de patas de ogre. 
Fazia frio e eu sentia-me apática.
Resolvi ir fazer um chá de cidreira pois fome não tinha muita. Enquanto a água fervia,  encostei-me à porta da cozinha que dá para a varanda e, enquanto observava as gotas a caírem no muro da varanda da vizinha, perdi-me nos meus próprios pensamentos. Até agora, ainda não sei onde estavam. Talvez estivessem num sítio sereno e feliz, talvez tenha sido por isso que não dei conta deles.  Sei, porém, que despertei ao ouvir o barulho da água, que ao ferver demasiado, começava a intrometer-se com os bicos quentes do fogão. 
Após preparar o chá, regressei à varanda e sentei-me em cima da botija de gás vazia.
O chá fervia, mas fazia frio e nem ele me aqueceu.
Comecei então a recordar que, há um mês atrás, aquela vista era completamente diferente daquela que eu observava hoje. Recordei, também, que o meu amor por ti ardia numa chama intocável.
Recordo, ainda, que não fazia frio e eu sentia-me feliz. 
Agora, faz frio todos os dias e eu não sei que mais fazer para voltar a ser quente, para voltar a arder.
Faz tanto frio que me sinto a morrer por dentro
A tristeza cedeu lugar à apatia e eu não sei o que fazer. 
Não sei que fazer com este frio que me invade a alma e a deixa murcha, sem chama, sem nada.
O ciúme é egoísta e tóxico, destrói por dentro.
O ciúme traz frio, é por causa dele que me sinto assim.
A ideia de pertenceres a outra pessoa desola-me. Arrasa-me. Descobre-me. Revela-me.
Deixa-me com frio.
Deixei de sonhar, com medo da realidade, com medo de ficar desolada, arrasada, descoberta, revelada.
O vento levou-me tudo, apagou a chama e deixou-me sem nada.
Não.
Deixou-me algo: frio.
O céu estava negro, pesado. Parecia carregar o mundo todo nas costas. Contudo, carregava apenas água que rapidamente se prontificou a cair, com brutalidade, sobre a terra. As árvores estavam despidas, e as suas folhas estavam mortas no chão. Tal como tudo o que eu tinha, morto no chão. Os seus troncos pareciam ter frio. Tal como eu, gelada até aos ossos.
Regressei para dentro, deixei a caneca na cozinha e fui sentar-me à secretária. Enquanto o computador ligava, comecei a ler os post-its que tinha na parede e vi aquele que me escreveste, há já algum tempo. Sorri ao recordar a sua história e, tristemente, apercebi-me de que o tempo não pára. Balança, porém, para trás e para a frente, obrigando-nos a preencher o passado e a retirar-nos o presente, desconcertando os passos do futuro.
No entanto, há coisas que nem o tempo pode mudar. 
Passou já algum tempo e ainda estou com frio.
Passou já algum tempo e o meu amor por ti ainda não morreu.
Fui fraca, por isso ainda tenho frio.
Então, apercebi-me:
Tenho frio porque já não sinto os teus braços rodearem-me o pescoço, envolvendo-me em segurança. 
Tenho frio porque já não ouço as palavras calorosas saírem da tua boca para me fazerem feliz.
Tenho frio porque já não ouço o bater do teu coração no meu ouvido.
Tenho frio porque já não te tenho.



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