segunda-feira, 28 de novembro de 2011

ruas abstractas


As ruas abstractas, nas quais a vida caminha sem destino.
Deambula por entre pessoas sem cara, sem propósito de existência. 
Coitadas, sem destino.
Os transeuntes pisam os paralelos meticulosamente encaixados, que, pobres deles, não os levam a lado nenhum.
Eles acham que têm cara, mas não têm nada.
São só peões que caminham nas ruas abstractas, onde a vida deambula, dia e noite, sem destino.
Sem uma casa para onde regressar, sem ninguém que a espere.
E, entre os dias que voam, os transeuntes acabaram por ser devorados pelo próprio pai, sem que este o consiga evitar.
Pobres coitados
Que caminham nos paralelos encaixados
Na direcção da morte.
Porque as ruas abstractas ensinam o caminho para o fim da vida. 
Que não tem destino.



sábado, 19 de novembro de 2011

a pradaria



Há um sítio, uma pradaria.
Uma pradaria com a maior multiplicidade de flores e cores, onde o sol é escaldante e o céu muito azul.
Uma pradaria com relva fresca, daquelas pradarias onde tu gostas de caminhar descalço.
Nessa pradaria há um salgueiro.
Um salgueiro muito velho e muito grande, mas sempre muito bonito, com o seu verde e as suas folhas caídas.
Salgueiro este onde, nos dias de muito calor, te sentas na sombra e lês um livro. Às vezes levas uma guitarra.
Sentes-te protegido lá? Eu sim.
Perto (pertíssimo!) desse salgueiro, há um rio.
Um rio de um verde esmeralda, brilhante e calmo.
Rio este onde, quando a sombra do salgueiro já não chega, refrescas-te nas águas límpidas e brilhantes daquela dádiva das montanhas.
Eu sei que gostas muito desse sítio.
Eu também. 
E muitas vezes te vi lá: parecias um anjo. Tão natural, tão puro...!


Mas.
Os dias de sol brilhante acabaram.
A pradaria já não tem flores, e é só de uma cor, morta. O céu é agora cinzento, as águas são escuras e inseguras, o salgueiro já não tem cor, já não protege.
Pudera.
Foste embora.
A tua pose angelical e o teu ser divinal abandonaram a pradaria, abandonaram-me a mim.
Agora não sei onde estás.
Sei, porém, que, onde quer que estejas, o teu ar angelical está a dar vida a um outro sítio.
Sei, também, que vais voltar.
E eu vou, ingenuamente, esperar-te debaixo do salgueiro, esperar que chegues e voltes a tornar o sítio puro, mais uma vez.
Porque sei que vais voltar.
E eu...
Eu vou voltar a ser feliz.








quarta-feira, 16 de novembro de 2011

partir para ficar

Acho que, a algum ponto das nossas vidas, já nos apeteceu fugir.
Agora é exactamente o que quero fazer.
Quero fugir da minha vida, deixar tudo para trás.
Quero largar as roupas já adaptadas à forma do meu corpo;
os copos que tantas vezes beijaram os meus lábios;
o perfume que tantas vezes se escondeu sob a minha pele.
Quero largar tudo.
Quero começar tudo de novo, anonimamente.
Ser mais uma pessoa na multidão imensa de uma grande cidade, que caminha, sem nome, nos passeios cinzentos e sem vida.


Quero sim, fugir.
Mas também quero cá ficar.


Quero dormir durante dias, ficar inconsciente, sem aperceber-me do que me rodeia.
Quero ficar alheia a tudo, quero tapar os meus ouvidos e não ouvir nada.
Mas quero ficar, eu quero ficar.
Quero-me ir embora sem ter que ir embora.




"Mãe, eu quero morrer mãe. Eu quero desnascer, ir-me embora, sem sequer ter que me ir embora."


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

nós

Não há tempo, não há espaço.

Há um nós.
Há um eu e tu perdido no manto celestial do Universo.
Um tu e eu invisível a todos e a nós próprios.
Ou não.
Provavelmente não existe um nós.
Nem um eu e tu.
Nem um tu e eu.
Somos relativos a nós mesmos.
Um paradoxo constante nas linhas perpendiculares de um gráfico.
Somos duas linhas que se encontram no zero e se refugiam no nada.
O nosso amor é um veterano de guerra que sobreviveu à linha de fogo das nossas vidas.
Lutou com tudo mas terminou com nada.
Acabou abrigado na nossa demência.
Coitado, nunca mais será o mesmo.
Ou melhor, nunca mais será algo.